Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de setembro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 02 de setembro de 2026



Por Antonio Glauber Santana Ferreira

O dia 02 de setembro de 2026 acordou com cara de segunda-feira mesmo sendo quarta, tropeçando nas próprias notícias e derramando café quente sobre a toalha da realidade. Em Aracaju, os ônibus da VRS Transportes foram impedidos de deixar a garagem, e o trabalhador, coitado, ficou olhando para o ponto como quem espera um amor que disse “já estou chegando” há quarenta minutos. Os ônibus ficaram presos, silenciosos, enfileirados, parecendo elefantes de metal de castigo, enquanto a população fazia aquela velha modalidade olímpica brasileira: a corrida contra o relógio sem transporte público. A Prefeitura disse esperar que os veículos voltem a circular até sexta-feira. Até lá, haja sola de sapato, carona, aplicativo, oração e panturrilha! Porque neste país, quando o ônibus não anda, quem ganha velocidade é a indignação. E o cidadão, que já paga passagem, imposto, conta de luz, água e até para respirar emocionalmente, ainda precisa transformar o caminho do trabalho numa peregrinação digna de Santiago de Compostela.

Mas setembro também abriu uma cortina de tristeza. Aos 83 anos, morreu Gracindo Jr., ator cuja vida se confundiu com a própria história da televisão brasileira. Foram décadas entrando pela sala das famílias, fazendo rir, chorar, odiar personagens e amar histórias. Começou na televisão quando a Globo ainda engatinhava, atravessou filmes, palcos e novelas como quem atravessa estações levando uma mala cheia de arte. Quando um ator assim parte, o palco não fica vazio: fica silencioso. As cortinas parecem pesar mais, as luzes diminuem e até os aplausos guardados na memória ganham um gosto de saudade. Gracindo saiu de cena, mas certos artistas não morrem completamente; apenas mudam de palco e passam a representar dentro da lembrança de quem os viu.

E quando a humanidade ainda enxugava uma lágrima, Minneapolis, nos Estados Unidos, trouxe novamente o estampido brutal da violência. Um atirador deixou dois mortos e vários feridos, entre eles policiais, antes de morrer no local. Outra vez as sirenes rasgaram o ar. Outra vez famílias receberam telefonemas que ninguém deveria receber. Outra vez o mundo perguntou, com a voz rouca de tanto repetir a pergunta: até quando? Armas não discutem filosofia, não conhecem infância, não entendem abraços. Quando falam, falam apenas o idioma seco da tragédia. E é assustador perceber como a humanidade consegue construir foguetes capazes de procurar vida em outros planetas, mas ainda tropeça miseravelmente na tarefa elementar de preservar a vida neste aqui.

Assim terminou mais um capítulo deste setembro recém-nascido: ônibus parados, um grande artista fazendo sua despedida e tiros lembrando que a civilização ainda tem muito dever de casa atrasado. A vida, essa cronista debochada, escreve páginas que misturam comédia e tragédia sem pedir licença. Às vezes nos faz rir no ponto de ônibus; outras, nos deixa em silêncio diante de uma cortina fechada ou de uma sirene distante. Talvez nossa missão seja justamente esta: não permitir que a pressa mate a solidariedade, que a violência mate a esperança e que as dificuldades matem o nosso humor. Porque enquanto houver alguém capaz de rir do absurdo, chorar por quem partiu e se indignar com a injustiça, ainda haverá humanidade tentando não perder o último ônibus da esperança.

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