Crônica – O Reino dos Decibéis e o Silêncio Exilado

Barulho e falta de respeito aos idosos, crianças, autistas e aos animais 

Por Antonio Glauber Santana Ferreira

Eles chegam sem pedir licença. Não batem à porta, não dizem bom dia, não pedem desculpa. Chegam rugindo, cuspindo graves, ostentando luzes piscantes como se fossem tronos ambulantes de um reino onde o respeito foi exilado e o silêncio condenado à prisão perpétua. São os paredões de som — essas catedrais do barulho, erguidas em nome de uma liberdade que só vale para quem grita mais alto.

O paredão não toca música: ele invade. Ele não anima a festa: ele sequestra a rua. Não convida o bairro: impõe-se ao bairro. É uma ditadura em forma de caixa acústica, onde o volume máximo é a única lei e o ouvido alheio é apenas um detalhe descartável.

Enquanto o dono do paredão sorri, orgulhoso como quem acabou de conquistar um troféu invisível, há uma criança tentando dormir com o coração pulando no ritmo do grave. Há um idoso contando as batidas como quem conta remédios. Há um trabalhador que amanhã acorda cedo, mas hoje perde o sono para uma playlist que não escolheu. O paredão toca para um; o incômodo dança para muitos.

Curioso como o barulho virou sinônimo de alegria. Como se felicidade precisasse ser medida em decibéis. Como se a diversão só fosse legítima quando atravessa paredes, invade janelas, sacode telhas e faz tremer copos d’água. O silêncio, esse velho sábio, virou suspeito. Quem gosta de sossego passou a ser chamado de chato, careta, inimigo da festa — como se pedir respeito fosse crime e querer paz fosse um defeito de caráter.

E quando alguém ousa reclamar, o argumento vem pronto, embrulhado em arrogância: “É só uma vez”, “é final de semana”, “é cultura”. Cultura? Desde quando cultura é atropelar o direito do outro? Desde quando tradição se constrói esmagando o descanso alheio? Cultura que machuca, que adoece, que oprime, não é cultura — é ruído social.

Os paredões falam alto porque aprenderam a não ouvir. Não ouvem a lei, não ouvem o bom senso, não ouvem o vizinho. Vivem numa lógica curiosa: liberdade para mim, silêncio obrigatório para você. Uma democracia sonora às avessas, onde vence quem tem o amplificador maior e a empatia menor.

No fim da noite — ou melhor, no começo da madrugada interminável — sobra o rastro: ouvidos zunindo, nervos à flor da pele, sono perdido, paciência estourada. O paredão vai embora, mas o cansaço fica. A festa acaba para um, o prejuízo começa para muitos.

Talvez um dia alguém invente um botão de “respeito” tão potente quanto o volume máximo. Enquanto isso não acontece, seguimos vivendo nesse campeonato invisível de quem grita mais alto, esquecendo que civilização não se mede em watts, mas em consideração.

Porque, no fundo, quem precisa berrar para existir talvez esteja gritando exatamente aquilo que lhe falta: consciência.

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