Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 07 de setembro de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 07 de setembro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
Vamos para a crônica do dia 7 de setembro de 2026, aniversário de 204 anos da Independência do Brasil, essa senhora de mais de dois séculos que ainda acorda cedo, veste verde e amarelo, procura os óculos e pergunta: “Independência mesmo… onde foi que eu guardei?” Em Japaratuba, no interior sergipano, a tradição desfilou bonita pela Avenida Otavio Aciole Sobral com escolas municipais , estaduais e particulares transformando o asfalto em passarela de civismo, música e orgulho. Tambores rufaram como corações gigantes, bandeiras dançaram com o vento e os estudantes marcharam tão alinhados que até os boletos, se tivessem vergonha, entrariam em formação. Foi um espetáculo daqueles em que o povo esquece por alguns minutos o preço do supermercado e lembra que também se alimenta de pertencimento, memória e esperança. Em Aracaju, a Avenida Barão de Maruim virou uma grande artéria patriótica, pulsando militares, estudantes, autoridades e famílias. Houve revista da guarda, hasteamento das bandeiras e a 32ª edição do Grito dos Excluídos acontecendo simultaneamente — porque o Brasil é essa orquestra curiosa em que o tambor do desfile toca de um lado e, do outro, a realidade pega o megafone e diz: “Ei, ainda tem muita gente esperando sua parte da independência!” E talvez seja justamente aí que mora o verdadeiro patriotismo: não apenas amar a bandeira quando ela sobe no mastro, mas olhar para quem ainda vive com direitos descendo ladeira abaixo sem freio.
Sergipe, por sua vez, deu um importante passo na política: com 159 candidaturas femininas, alcançou a maior participação proporcional de mulheres entre os estados. São 38,97% das candidaturas. Finalmente a política vai percebendo que mulher não nasceu apenas para servir cafezinho em reunião, organizar campanha e depois aparecer na foto segurando bandeirinha. Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive sentada na cadeira onde muita gente ainda pensa que o poder vem com manual de instruções exclusivamente masculino. Que venham mais mulheres, mais vozes e menos discursos embolorados com cheiro de gabinete fechado! Em Brasília, o desfile teve também seu baile de olhares, cochichos e conversas reservadas entre autoridades dos Três Poderes. Lula, Edson Fachin, Davi Alcolumbre e Hugo Motta dividiram a tribuna num momento de tensão política. A cena devia parecer reunião de família depois da discussão sobre herança: todo mundo sentado perto, sorriso protocolar no rosto e uma nuvem invisível cochichando “depois a gente conversa”. A política brasileira possui esse talento quase circense de transformar solenidade em tabuleiro de xadrez: enquanto a banda toca dobrado, alguém já calcula o próximo movimento por baixo da mesa. Destacamos um momento muito interessante quando um robô humanoide vestido com uniforme camuflado do Exército passou diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva exatamente como todos os outros integrantes das Forças Armadas, prestou-lhe continência. O momento divertiu a primeira-dama, Janja, que riu e prestou continência de volta.
E o mundo, que nunca perde a oportunidade de mostrar que também sabe produzir suspense, olhou para a Alemanha. A AfD, após resultado histórico na Saxônia-Anhalt, ficou a apenas três cadeiras de uma maioria e agora tenta encontrar apoio para governar. A Europa, que tantas vezes folheou seus próprios livros de História com mãos trêmulas, volta a encarar fantasmas ideológicos que muitos juravam enterrados. A História, porém, tem um hábito desagradável: quando não aprendemos a lição, ela não manda bilhete — manda prova de recuperação, e ainda coloca questão discursiva. Enquanto políticos contam cadeiras, votos e alianças, a natureza conta vidas. Na Rússia, uma avalanche no monte Mizhirgi matou 11 alpinistas. De repente, o barulho das campanhas, dos discursos e dos tambores fica pequeno diante do silêncio branco da montanha. A neve desceu como uma cortina brutal, lembrando que somos frágeis passageiros caminhando sobre o palco enorme da Terra.
Assim terminou o 7 de setembro de 2026: entre bandeiras que subiram, mulheres que avançaram, políticos que cochicharam, extremismos que cresceram e uma montanha que chorou em silêncio. Independência, talvez, não seja apenas o grito de 1822 ecoando às margens de um rio. Independência é fazer o país caminhar sem deixar ninguém acorrentado à fome, à violência, ao preconceito ou à falta de oportunidade. Porque cantar o Hino é bonito, levantar a bandeira emociona e desfilar arrepia — mas a verdadeira pátria começa quando o cidadão deixa de ser figurante e passa a ser tratado como protagonista. Afinal, depois de 204 anos, o Brasil já está grandinho: está mais do que na hora de aprender que independência não é apenas uma data no calendário… é uma tarefa de casa que ainda não terminamos.