Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de setembro de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de setembro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
Abram as cortinas, porque o espetáculo das notícias de 12 de setembro de 2026 vai começar — e tragam guarda-chuva, colete salva-vidas, capacete e, se sobrar espaço na bolsa, um pouco de esperança, porque o mundo anda parecendo uma peça de teatro escrita por um roteirista que tomou três cafés, perdeu o juízo e decidiu misturar drama, suspense e comédia no mesmo liquidificador. Em Estância, a Justiça autorizou obras para proteger a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Praia do Saco, onde o mar, atrevido feito vizinho que entra sem bater, vinha avançando sobre o patrimônio histórico. Agora, pedras formarão um enrocamento para segurar as ondas, porque até Nossa Senhora da Boa Viagem estava precisando de uma ajudinha para não fazer uma “boa viagem” capela adentro pelo Atlântico. O oceano, esse gigante azul que não lê placa de patrimônio tombado, continuará batendo à porta com seus punhos de espuma, enquanto a engenharia responde: “Aqui não, meu filho!”. E é bonito pensar que preservar uma capela é também proteger a memória de um povo; afinal, quando a história desaba, não há cimento capaz de reconstruir completamente aquilo que a negligência deixou o tempo levar.
Enquanto Sergipe tenta conter o mar, São Paulo resolveu receber água diretamente do departamento celestial de lavagem pesada. Choveu tanto que a capital registrou o maior acumulado de 24 horas do Brasil, e setembro já entrou no ranking dos mais chuvosos desde 1943. Foram 75,4 milímetros em apenas um dia e 198,2 milímetros no mês. São Pedro aparentemente abriu a torneira, saiu para comprar pão e esqueceu de voltar. O paulistano, acostumado com trânsito, buzina, metrô cheio e boleto, agora olha para a rua e pergunta se o transporte público aceita remo, canoa ou jet ski. Setembro, que deveria trazer flores da primavera, resolveu aparecer vestido de nuvem preta, carregando baldes e dizendo: “Surpresa!”. Mas por trás da piada mora uma preocupação séria: cidades impermeabilizadas demais transformam chuva forte em ameaça, e a natureza sempre cobra juros quando o planejamento urbano parcela irresponsabilidades por décadas.
E da França veio a notícia mais sombria do dia: um trem descarrilou na Normandia, deixando 44 feridos, e a polícia investiga possível sabotagem. Cento e oitenta e seis pessoas estavam a bordo, cada uma carregando destinos, compromissos, sonhos, preocupações, mensagens por responder e aquela humilde certeza de quem entra num trem acreditando que chegará ao destino. Bastou um instante para os trilhos, símbolos de direção e segurança, virarem cenário de medo. Se realmente houve sabotagem, será mais uma demonstração da absurda capacidade humana de transformar ferro, velocidade e vida em peças de um jogo cruel. O maquinista não estava sob efeito de álcool ou drogas; investigadores encontraram um fragmento de trilho e agora procuram respostas naquele quebra-cabeça de aço.
E assim terminou mais um capítulo desse planeta inquieto: em Sergipe, pedras tentando segurar o mar; em São Paulo, gente tentando escapar da chuva; na França, investigadores tentando descobrir quem ou o que tirou um trem do caminho. Talvez a grande metáfora do dia seja justamente essa: todos nós estamos tentando permanecer nos trilhos enquanto as águas sobem, as ondas avançam e alguma mão irresponsável insiste em mexer nas peças. O mundo anda tão estranho que daqui a pouco será necessário colocar placa na entrada da Terra: “Cuidado: planeta em manutenção. Sujeito a chuvas, erosões, descarrilamentos e decisões humanas.” Ainda assim, entre uma tempestade e outra, seguimos — porque a esperança, essa danada, é igual mato depois da chuva: você pode pisar, arrancar, reclamar… mas ela encontra uma fresta e nasce outra vez.