Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 26 de setembro de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 26 de setembro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
O dia 26 de setembro de 2026 acordou como quem esqueceu o ventilador ligado dentro do forno: em Sergipe, Poço Redondo e Porto da Folha já haviam carimbado impressionantes 40 °C no termômetro, temperatura em que até o sol parece pedir água, a sombra cobra aluguel e o cuscuz sai da cuscuzeira já pedindo protetor solar fator 70. O Alto Sertão virou praticamente a varanda particular do astro-rei, e outubro promete chegar com o maçarico debaixo do braço, como aquele parente inconveniente que aparece dizendo: “Vim só passar uns dias” — e fica até o Natal. Enquanto nós, humanos, derretíamos como manteiga esquecida sobre a chapa, a natureza resolveu mostrar que também sabe fazer comédia: no Espírito Santo, a vaca Amanda, que o dono imaginava carregar um único “bezerrão”, resolveu fazer promoção de supermercado: leve três pelo esforço de um! Vieram Pinta, Nina e Cristóvão, três bezerros de uma vez, numa raridade tão grande que talvez até a própria vaca tenha olhado para trás pensando: “Meu Deus, eu pedi maternidade, não uma creche municipal!”. A vida, quando quer, escreve piadas melhores que qualquer humorista: de um lado, termômetros torrando a paciência; do outro, uma vaca distribuindo milagres em atacado. Mas então o riso bateu numa parede fria. Rússia e Ucrânia voltaram a trocar ataques, deixando sete mortos segundo autoridades dos dois lados. E ali não existe metáfora engraçada que consiga esconder a tragédia. Mísseis não conhecem poesia, drones não sentem saudade, bombas não perguntam se dentro daquela casa existe uma mãe esperando o filho voltar, um pai preparando o jantar ou uma criança sonhando com o amanhã. A guerra é talvez a invenção mais absurda do ser humano: gastamos fortunas para aperfeiçoar máquinas capazes de destruir em segundos aquilo que uma família levou décadas para construir. É como incendiar a própria casa para discutir quem fica com a chave da porta. No fim deste sábado estranho, o mundo parecia uma enorme fotografia cheia de contrastes: Sergipe fervendo, uma vaca multiplicando vida e duas nações multiplicando túmulos. Talvez a maior notícia seja justamente essa contradição: a natureza insiste em nascer enquanto o homem insiste em destruir. Amanda colocou três vidas no chão de uma fazenda e, a milhares de quilômetros dali, explosões arrancaram outras do mapa. Que humanidade esquisita somos nós! Temos inteligência para mandar máquinas ao espaço, mas às vezes falta sabedoria para sentar numa mesa. Talvez Pinta, Nina e Cristóvão tenham vindo lembrar, sem discursos, palanques ou tratados internacionais, aquilo que parece tão difícil compreender: a vida dá um trabalho danado para nascer; por isso, deveria dar muito mais trabalho decidir destruí-la.