Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de agosto de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 16 de agosto de 2026

Por Antonio Glauber Santana Ferreira

Vamos celebrar! O domingo, 16 de agosto de 2026, acordou disposto a provar que o mundo anda precisando de roteirista, meteorologista, médico, delegado, poeta e talvez até de um bom terapeuta, tudo ao mesmo tempo. Em Aracaju, uma nuvem funil apareceu na Orla da Atalaia e o céu resolveu fazer cosplay de liquidificador gigante. A coluna de ar desceu rodopiando como se as nuvens tivessem ouvido um forró e decidido dançar agarradinhas com o vento. Quem estava na praia olhou para cima com aquela expressão clássica de sergipano diante do inesperado: “Oxente, e agora até nuvem está querendo virar tornado?”. A natureza não manda áudio, não posta indireta e não chama coletiva de imprensa: quando quer ser notada, desenha um funil no céu e deixa milhares de celulares apontados para cima. Mas, se em Aracaju o céu fazia pirueta, em Frankfurt foram as meninas da ginástica rítmica brasileira que fizeram a gravidade pedir licença. O Brasil terminou o Mundial na vice-liderança do quadro de medalhas, com dois ouros inéditos e um bronze na prova geral. Parabéns, meninas! Rússia e Bulgária, tradicionais potências, devem ter procurado no regulamento algum artigo dizendo: “É permitido brasileiro chegar dançando e levar medalha desse jeito?”. As nossas ginastas lançaram fitas ao ar como quem escrevia poemas no vento, giraram arcos como luas particulares e transformaram músculos, disciplina e sonho em uma sinfonia de movimentos. Garantiram ainda vaga antecipada para Los Angeles 2028. Se dependesse do entusiasmo brasileiro, já mandaríamos pintar a placa do aeroporto: “Los Angeles, estamos chegando — guardem espaço no pódio!”. Só que, enquanto algumas pessoas constroem músculos com suor, treino e persistência, outras resolveram pegar o elevador clandestino da malandragem. A polícia desarticulou um esquema de anabolizantes falsificados com ramificações no Brasil e no Paraguai, laboratórios clandestinos, produtos adulterados vendidos pela internet e R$ 32 milhões em bens bloqueados. É a indústria do “bíceps para ontem”: o sujeito quer braço de super-herói em quinze dias, mas pode acabar precisando de um médico em quinze minutos. Até um homem conhecido como Jiraya apareceu na investigação. E o nome combina tanto com a história que parece roteiro de desenho japonês: só faltava o vilão gritar “poder do anabolizante falsificado!” antes de a polícia entrar em cena. A ironia é cruel: vender força falsa é talvez uma das maiores demonstrações de fraqueza moral que existem. Corpo não é massa de bolo para colocar fermento clandestino e esperar crescer. Saúde não aceita atalho sem mandar a conta depois, e geralmente ela chega com juros. Mas o domingo, que até então misturava espanto e celebração, escureceu de repente quando as notícias chegaram da República Democrática do Congo. O Ebola já havia deixado 4.945 casos confirmados e 2.325 mortos, tornando aquele surto o mais mortal da história do país. E aí o humor precisa baixar a voz. Porque 2.325 não são apenas algarismos frios empilhados numa notícia: são cadeiras vazias, pratos que não serão mais servidos, abraços interrompidos, mães, pais, filhos, amigos e histórias que ficaram sem último capítulo. Enquanto algumas nações contam medalhas, outras contam mortos — e talvez essa seja uma das fotografias mais dolorosas da desigualdade humana. O planeta gira, mas nem sempre gira para todos com a mesma delicadeza. O dia 16 de agosto terminou assim: o céu de Aracaju rodopiou, as meninas brasileiras fizeram o mundo aplaudir, a polícia furou o balão dos músculos falsificados e o Congo lembrou que a vida continua sendo uma chama frágil enfrentando ventos brutais. Entre o riso e a lágrima, talvez exista uma verdade simples: precisamos celebrar cada vitória, combater cada fraude e jamais transformar a dor do outro em apenas mais um número na tela. Porque viver é exatamente isso — equilibrar-se numa fita invisível enquanto o mundo gira feito aquela nuvem sobre a Atalaia. Às vezes somos ouro, às vezes tempestade, às vezes apenas alguém tentando não cair. E que venha o próximo dia, porque este velho planeta pode até estar meio maluco, mas continua girando… e, pelo jeito, sem nenhuma intenção de pedir férias.

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