Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de agosto de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 14 de agosto de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
Sente-se e vamos fazer a leitura da crônica de hoje. A sexta-feira, 14 de agosto de 2026, acordou parecendo aquele sujeito que mistura café, susto e confusão na mesma xícara. Em Aracaju, a chuva caiu com tanta vontade que algumas ruas quase pediram licença à Prefeitura para mudar de profissão e virar rio. No Bairro Industrial, um carro caiu numa cratera na Rua Julieta Pereira Alves, como se o asfalto tivesse aberto a boca e dito: “Entre, a casa é sua!”. Dentro estavam o motorista, a esposa e dois filhos. Felizmente, ninguém se feriu. Foi uma família inteira fazendo turismo involuntário pelas profundezas da infraestrutura urbana — modalidade que, convenhamos, não deveria constar em nenhum roteiro turístico. Quando uma rua alagada esconde uma cratera, dirigir deixa de ser trânsito e vira prova do Indiana Jones: você sai de casa para comprar pão e pode acabar descobrindo uma passagem secreta para o centro da Terra. O buraco, majestoso e cheio d’água, parecia declarar independência do município: já tinha território, piscina e estacionamento particular! E o cidadão? Esse continua pagando imposto com a esperança de que o asfalto, um dia, resolva permanecer no lugar onde foi colocado.
Enquanto Aracaju encontrava profundidade em plena rua, a Petrobras resolveu procurar profundidade de verdade no oceano. E encontrou hidrocarbonetos no poço Morpho, na Bacia da Foz do Amazonas, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, em águas de impressionantes 2.886 metros de profundidade. É petróleo ou gás dando sinal de vida lá embaixo, tão fundo que até o preço da gasolina deve ter ficado tonto só de olhar! A notícia reacende aquela velha paixão brasileira pelo petróleo: quando descobrimos uma possível riqueza no subsolo, o país já começa mentalmente a comprar sofá novo, trocar a geladeira e parcelar o futuro em doze vezes sem juros. Mas convém lembrar: petróleo não é bilhete premiado de loteria; entre encontrar, explorar, proteger o meio ambiente e transformar riqueza natural em benefício social existe um oceano — e esse oceano costuma ser mais profundo que os 2.886 metros do poço Morpho. Que a riqueza, se vier, não seja mais uma mesa farta onde poucos comem e milhões ficam olhando pela janela com o prato vazio.
E quando parecia que o planeta já havia gasto todo o estoque de dramaticidade, a Indonésia tremeu. Um terremoto de magnitude 7,7 atingiu sua costa, deixando destruição e ao menos 47 mortos, seguido por abalos secundários e alerta de tsunami em algumas regiões. Ali o humor silencia, tira o chapéu e dá lugar ao respeito. A Terra, que tantas vezes tratamos como cenário imóvel das nossas vaidades, mostrou que também respira, range, estremece e grita. Em poucos segundos, paredes viram poeira, certezas viram medo e famílias passam a procurar entre escombros aquilo que minutos antes chamavam simplesmente de lar. É nesses momentos que nossas guerras, nossas brigas políticas e nossas pequenas arrogâncias parecem formigas discutindo a propriedade de um grão de açúcar enquanto o mundo inteiro balança.
Assim foi a sexta-feira: em Aracaju, um carro mergulhou num buraco; no Amapá, o Brasil encontrou esperança mergulhada no oceano; na Indonésia, a própria Terra sacudiu a humanidade pelos ombros. Três profundidades diferentes: a profundidade do descaso, a profundidade da riqueza e a profundidade da dor. Talvez a grande notícia do dia seja justamente esta: cavamos demais o chão, disputamos demais suas riquezas e, às vezes, esquecemos de olhar para quem caminha sobre ele. Porque o progresso só merece esse nome quando tapa os buracos das ruas, transforma riquezas em dignidade e estende a mão a quem ficou sob os escombros. O resto é discurso com gravata, fotografia oficial e promessa tão cheia de ar que, se furar, sai voando igual balão de festa. E assim seguimos nós, passageiros deste planeta meio maluco, apertando o cinto, desviando das crateras e torcendo para que amanhã a notícia seja menos sísmica — e, pelo amor de Deus, que o asfalto continue sendo asfalto!