Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de agosto de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 12 de agosto de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
A quarta-feira, 12 de agosto de 2026, amanheceu como quem abre a janela e descobre que o mundo esqueceu de tomar o remédio: de um lado, o mar querendo visitar a sala de estar dos aracajuanos; do outro, a conta de luz ensaiando uma dieta para 2027 e 2028; e, mais longe, na Colômbia, a Terra sacudindo seus próprios ossos numa tragédia que fez até o silêncio tremer. Em Aracaju, a Defesa Civil avisou: maré alta até sexta-feira, acima de dois metros. O Atlântico, aparentemente cansado de ficar somente na praia, resolveu virar turista urbano e já conhece o roteiro: 13 de Julho, Soledade, Lamarão, Bugio, Jardim Centenário… só falta pedir CPF na nota e fotografar a placa “Eu amo Aracaju”. Quando a água invade ruas conhecidas, porém, a piada fica com os pés molhados: morador não é peixe, carro não é lancha e avenida não deveria precisar de salva-vidas. Todo ano a maré sobe e parece perguntar, com aquela ironia salgada de quem conhece a cidade há séculos: “E aí, vocês resolveram alguma coisa ou continuo trazendo meu próprio estacionamento aquático?”. Enquanto isso, em Brasília, Lula assinou decreto abrindo caminho para que pequenos estabelecimentos e, depois, consumidores residenciais possam escolher fornecedor de energia elétrica. Prometeram possibilidade de economia de até 20%, e imediatamente milhões de brasileiros olharam para a conta de luz como quem reencontra um inimigo de infância e pergunta: “Será que agora você cria vergonha?”. Se funcionar, talvez em 2028 o cidadão possa escolher quem fornecerá sua energia; hoje, por enquanto, ainda escolhe entre pagar a luz ou acender uma vela e fingir que está num jantar romântico. O brasileiro já dominou tantas modalidades olímpicas de economia doméstica que desligar lâmpada virou esporte nacional: banho de três minutos, ventilador no número dois e televisão ligada somente quando o personagem principal estiver falando. Mas o sorriso do dia se curva diante da Colômbia. Um terremoto de magnitude 7,4 deixou 265 mortos, milhares de feridos e quase 500 desaparecidos. Ali, toda metáfora perde um pouco da voz. A Terra, que tantas vezes chamamos de mãe, naquele instante pareceu uma mãe desesperada sacudida por uma febre brutal. Casas viraram poeira, ruas se transformaram em cicatrizes e famílias passaram a procurar nomes entre escombros, numa espera que pesa mais que concreto. E é assim que o dia 12 entrou para o calendário: Aracaju olhando para o mar, o Brasil olhando para a tomada e a Colômbia olhando para os destroços. Entre a água que sobe, a energia que promete baixar e o chão que brutalmente se move, fica uma verdade incômoda: somos uma humanidade cheia de tecnologia, decretos, aplicativos e discursos, mas ainda pequenos diante da natureza e, muitas vezes, gigantes apenas na arte de adiar soluções. Talvez viver seja exatamente isso: aprender a construir pontes antes da enchente, esperança antes da escuridão e solidariedade antes que o chão desapareça sob nossos pés. Porque notícia passa, manchete envelhece, decreto muda, maré baixa — mas a dor de quem perdeu alguém precisa encontrar em nós alguma margem onde possa descansar.