Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 22 de agosto de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 22 de agosto de 2026



Por Antonio Glauber Santana Ferreira

O sábado, 22 de agosto de 2026, abriu a cortina das notícias e mostrou que o mundo continua escrevendo seus capítulos com uma caneta que parece ter caído dentro de um liquidificador: mistura susto, tristeza, dinheiro, poder e uma pitada generosa daquele absurdo que faz a gente perguntar se a realidade não anda tomando café forte demais. Em Propriá, um adolescente escapou de uma queda depois que o cavalo em que estava caiu numa cratera. O jovem sobreviveu, graças a Deus, mas o animal morreu após cerca de quatro horas de uma operação de resgate que mobilizou Bombeiros e a infraestrutura municipal. E lá estava a cratera, de boca aberta, parecendo um monstro de asfalto com fome de roda, casco e paciência pública. Buraco em rua brasileira já deixou de ser acidente geográfico para virar patrimônio cultural não tombado: nasce pequeno, cresce com a chuva, engorda com o abandono e, quando ninguém olha, já está quase pedindo CEP, título de eleitor e vaga na Câmara Municipal. A morte do cavalo, porém, cala qualquer gargalhada. Há tristeza no casco que não voltou a tocar o chão, no relincho que virou silêncio, na vida que se perdeu dentro de uma ferida aberta pela terra. O adolescente saiu vivo, e essa é a luz no meio da poeira; mas fica a pergunta atravessada na garganta: quantos sustos ainda serão necessários para que uma cratera seja tratada antes de virar tragédia? Enquanto isso, noutra ponta do noticiário, os irmãos Joesley e Wesley Batista aparecem interessados na aquisição da Avibras, enxergando uma oportunidade de entrar nos setores de defesa nacional e aeroespacial. É uma mudança de cardápio respeitável: de alimentos, energia, mineração e finanças para foguetes e defesa. Se continuar nesse ritmo, daqui a pouco o grupo compra um pedaço da Lua, três crateras de Marte e ainda parcela Saturno em doze vezes sem juros. O capitalismo, quando resolve passear, não pega ônibus: pega foguete. O dinheiro é um turista atrevido, entra onde encontra porta, janela ou fresta; ontem estava no frigorífico, hoje olha para o céu e pergunta quanto custa a estrela da prateleira de cima. Há, naturalmente, uma discussão séria por trás do negócio: defesa nacional, tecnologia, indústria aeroespacial, soberania e empregos são assuntos grandes demais para caber apenas no bolso de uma piada. Mas a ironia deste sábado é quase poética: enquanto uma cratera no chão mata um cavalo em Sergipe, grandes investidores olham para o espaço. O Brasil parece viver com um pé atolado no buraco e o outro querendo pisar na Lua. Talvez seja esse o retrato do nosso tempo: sonhamos com foguetes enquanto tropeçamos no asfalto. Que venham os investimentos, a tecnologia e o desenvolvimento, mas que venha também o básico — porque não adianta conquistar o céu se continuarmos perdendo vidas dentro dos buracos da Terra. E assim termina o sábado: com uma cratera nos lembrando da fragilidade da vida e um negócio bilionário apontando para as estrelas. Entre o chão que desaba e o céu que promete fortuna, seguimos nós, brasileiros, equilibrando esperança e indignação como quem atravessa uma ponte segurando um cafezinho numa mão e a fé na outra.

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