Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de agosto de 2026 — Dia dos Pais
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 09 de agosto de 2026 — Dia dos Pais
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
O domingo, 09 de agosto de 2026, amanheceu vestido de Dia dos Pais, com cheiro de café, saudade temperada no peito e abraços atravessando a memória, mas o jornal, esse sujeito sem coração que nunca respeita feriado nem almoço de família, chegou chutando a porta com as notícias debaixo do braço. Em Aracaju, enquanto muitos pais talvez sonhassem com uma camisa nova, um perfume ou pelo menos com a gloriosa oportunidade de não pagar o almoço, um barraco no Santos Dumont foi tomado pelas chamas. O fogo, esse monstro vermelho de língua comprida, resolveu fazer seu próprio churrasco na madrugada, sem convite, sem carvão e, principalmente, sem a menor educação. Os bombeiros chegaram, isolaram a área, combateram as chamas e fizeram o rescaldo, porque incêndio é igual problema brasileiro: você pensa que acabou, vira as costas e ele aparece fumegando novamente atrás da cortina. E enquanto os bombeiros apagavam fogo de verdade em Aracaju, Brasília continuava sua pós-graduação em apagar incêndios diplomáticos. Com a eleição brasileira se aproximando, os desgastes com Estados Unidos e Argentina ganharam novos capítulos, e a diplomacia parece aquela reunião de família em que ninguém admite estar brigado, mas um não passa a farofa para o outro. Lula busca ampliar diálogos e mostrar que o Brasil não está isolado, enquanto a política internacional dança sobre ovos, cascas de banana e pesquisas eleitorais. É tanta estratégia que, daqui a pouco, ministro das Relações Exteriores vai precisar de capacete, colete salva-vidas e curso de terapia familiar. A direita avança, a esquerda reage, os discursos se inflamam, e o pobre cidadão observa tudo pensando apenas se o feijão também vai entrar numa coalizão para baixar de preço. Mas eis que, no meio desse oceano de fogo, eleição e diplomacia, a Sicília resolveu abrir uma gaveta de dois mil anos. Mergulhadores encontraram um antigo navio romano carregado de ânforas, repousando no fundo do mar como uma carta esquecida pela História. Que coisa extraordinária! Dois mil anos debaixo d’água e o navio ainda conseguiu aparecer; há promessas políticas feitas mês passado que já ninguém consegue localizar nem com sonar. O velho barco romano emerge simbolicamente do silêncio para lembrar que o tempo engole impérios, presidentes, discursos, vaidades e palanques, mas preserva histórias. Talvez seja essa a grande lição deste Dia dos Pais: alguns pais estão à mesa, outros moram apenas na fotografia, na lembrança, no jeito de falar, numa velha camisa guardada no armário ou naquele conselho que só começamos a compreender quando já não podemos responder. Pai também é uma espécie de navio antigo: atravessa tempestades carregando a família, enfrenta ondas escondendo os próprios medos e deixa dentro de nós ânforas invisíveis cheias de memória, ensinamento e amor. Neste domingo, portanto, entre o fogo de Aracaju, o incêndio diplomático de Brasília e um navio romano ressuscitado pelo Mediterrâneo, percebemos que tudo passa — o poder passa, a eleição passa, a manchete passa e até o barraco queimado um dia será reconstruído. O amor, porém, quando verdadeiro, tem uma estranha mania de não obedecer ao calendário. E pai, presente ou ausente, continua navegando dentro da gente, porque certas pessoas não morrem: apenas mudam de endereço e passam a morar definitivamente no coração.