Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de agosto de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 15 de agosto de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
O sábado, 15 de agosto de 2026, acordou parecendo vendedor de feira: numa mão, imóvel em promoção; na outra, política requentada; e, equilibrando tudo na cabeça, um terremoto capaz de lembrar à humanidade que o chão, esse sujeito aparentemente educado, também perde a paciência. Em Sergipe, a Caixa colocou 18 imóveis em leilão, e imediatamente muita gente começou a sonhar com a casa própria com desconto, porque brasileiro vê a palavra “desconto” e o coração já bate igual escola de samba em fevereiro. Os lances são pela internet e o encerramento começa às 10 horas do dia 20 de agosto. É a modernidade: antigamente a pessoa levantava parede tijolo por tijolo; agora pode tentar comprar a parede inteira de pijama, segurando o café numa mão e aumentando o lance com a outra. Só cuidado para não clicar empolgado demais e acabar descobrindo que comprou uma casa, uma dívida e três cabelos brancos no mesmo pacote! Enquanto os imóveis iam a leilão, a política brasileira resolveu abrir mais um capítulo daquela novela que parece ter contrato vitalício com o horário nobre: o STF suspendeu a condenação de Romero Jucá, que poderá concorrer às eleições. Jucá, que já passou 24 anos no Senado, anunciou pré-candidatura a deputado federal por Roraima. Vinte e quatro anos! É tanto tempo que, se o Senado fosse casamento, já estaria procurando bodas em catálogo especial. A política brasileira é mesmo um bumerangue com GPS: você joga, ela dá três voltas em Brasília, toma um cafezinho, conversa com meia dúzia de advogados e aparece novamente na porta perguntando: “Sentiu minha falta?”. Mas, enquanto por aqui disputamos casas, votos, cargos, recursos e interpretações jurídicas, a Indonésia viveu uma dor que não cabe em sarcasmo. Um terremoto de magnitude 7,7 atingiu a Ilha de Flores, matou 47 pessoas, derrubou prédios e foi seguido por mais de 200 abalos secundários. Em Maumere, o chão rugiu como uma fera subterrânea e as ruas viraram corredores de medo. O concreto, tão arrogante quando está de pé, descobriu em segundos sua fragilidade; paredes tombaram como castelos de cartas diante do sopro brutal da Terra. Houve alerta de tsunami, correria, poeira, gritos e aquele silêncio terrível que fica depois da tragédia, quando até o vento parece falar mais baixo em respeito aos mortos. E assim terminou o retrato deste 15 de agosto: de um lado, homens discutindo quem pode voltar ao poder; de outro, pessoas tentando conquistar um teto; e, bem longe dali, famílias agradecendo simplesmente por ainda terem chão sob os pés. Talvez a grande ironia da vida seja esta: passamos anos brigando por propriedades, mandatos, títulos e cadeiras, até que a natureza sacode a mesa e lembra que somos todos hóspedes — nunca proprietários — deste planeta. A Terra não consulta pesquisa eleitoral, não participa de leilão, não lê processo judicial e tampouco pede licença para estremecer. Ela apenas nos recorda, com brutal poesia, que entre a escritura de uma casa e a certidão da existência existe uma palavra pequena, frágil e preciosa: vida. E essa, meus amigos, quando vai a leilão, não existe lance capaz de comprar de volta.