Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de agosto de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 21 de agosto de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
Nesta sexta-feira, 21 de agosto de 2026, Sergipe resolveu começar o dia mexendo os próprios móveis. A terra deu uma sacudidinha em Pacatuba, coisa de magnitude inferior a 1,5, mas suficiente para alguns moradores de povoados de Japaratuba e Japoatã perguntarem: “Oxente, foi o chão ou fui eu?” Não houve feridos nem prejuízos, graças a Deus, mas o planeta parece ter mandado uma notificação sem usar celular: “Estou aqui embaixo, viu?” A terra tossiu baixinho, espreguiçou as placas geológicas e voltou a dormir. Só faltou alguém gritar: “Segura a cristaleira!” Num mundo onde até o solo anda inquieto, tranquilidade virou artigo de luxo, quase peça de museu.
E inquietos também estão os jovens brasileiros. Pesquisa aponta que 70% trabalham e 32% conciliam emprego e estudos. Quer dizer: uma parte da juventude acorda estudante, almoça trabalhador, janta cansado e dorme abraçado com o despertador, esse pequeno ditador eletrônico que toca justamente quando o sonho estava ficando bom. E ainda dizem que falta experiência para conseguir emprego. É uma ironia com crachá: para trabalhar é preciso experiência, mas para ter experiência é preciso trabalhar. É quase pedir ao sujeito que aprenda a nadar antes de entrar na água. Enquanto isso, a inteligência artificial assusta parte da juventude. Pudera! Já temos gente competindo com gente, gente competindo com boleto e agora aparece até algoritmo querendo currículo. Daqui a pouco a entrevista de emprego será feita por um robô perguntando: “Qual seu maior defeito?” E o candidato, olhando para a máquina: “Ter nascido humano.”
No futebol, a bola descansou, mas a confusão entrou em campo de chuteira. A Fifa multou a Argentina em US$ 321 mil por violações disciplinares durante a Copa do Mundo de 2026, incluindo uma faixa relacionada às Ilhas Falklands/Malvinas, e ainda suspendeu jogadores após a briga na final contra a Espanha. Leandro Paredes levou dez jogos. Dez! É suspensão suficiente para o cidadão decorar a arquibancada, aprender crochê e talvez escrever um livro chamado Como não transformar uma final de Copa em reunião de condomínio. O futebol, essa maravilhosa fábrica de paixões, às vezes esquece a bola no vestiário e entra em campo carregando política, provocação, cotovelo, empurrão e um estoque industrial de testosterona. A Fifa, por sua vez, multa com a delicadeza de quem entrega uma conta de restaurante depois que você já pediu sobremesa: “Foi muito bom, senhores. Agora paguem.”
Mas entre tanto barulho surgiu uma notícia capaz de acender uma vela de esperança dentro do peito: cientistas testam vacinas para tentar impedir o câncer de intestino antes mesmo que ele se forme, especialmente em pessoas com síndrome de Lynch. Eis a ciência fazendo poesia com microscópio. Enquanto tanta gente ergue muros, a medicina tenta erguer escudos. Imaginem: ensinar o sistema imunológico a reconhecer o inimigo antes que ele construa sua fortaleza. É como colocar sentinelas nas portas do corpo dizendo: “Aqui você não entra.” A história da médica Stacy Norton, que perdeu a mãe para o câncer ainda criança e agora participa dos testes pensando também nos próprios filhos, transforma laboratório em território de emoção. Há pesquisas que não mexem apenas com células; mexem com lembranças, medos, famílias inteiras. Se der certo, talvez no futuro algumas pessoas recebam não apenas uma vacina, mas uma espécie de passaporte antecipado para mais aniversários, mais abraços, mais domingos e mais vida.
Na China, Chongqing parece ter sido construída por um arquiteto que olhou para a gravidade e disse: “Hoje não.” Prédios gigantes, ruas em diferentes andares, pontes cruzando montanhas, metrô atravessando edifícios... É cidade ou videogame com código secreto ativado? Em Chongqing, você entra num prédio pelo térreo e pode sair no vigésimo andar encontrando uma rua. Se isso acontecesse por aqui, o brasileiro entraria procurando a padaria e sairia três bairros depois perguntando: “Moço, onde fica o chão?” A cidade chinesa é uma poesia de concreto, um quebra-cabeça vertical, uma montanha vestida de arranha-céus. Lá, até a geografia parece sofrer de criatividade excessiva.
E enquanto a China desafia a gravidade, Lula e Donald Trump desafiaram o relógio: conversaram por telefone durante uma hora e vinte minutos sobre comércio, crime organizado, eleições brasileiras e conflitos como as guerras na Ucrânia e no Irã. Uma hora e vinte! Tem casamento em crise que não conversa isso no mês inteiro. Trump perguntou sobre as eleições; Lula respondeu que está tudo bem e reafirmou a segurança do sistema eleitoral brasileiro. Também discutiram tarifas comerciais. Imagino o telefone ficando quente, pedindo água e adicional de insalubridade. Entre uma palavra e outra, o planeta inteiro parecia caber na linha: guerra de um lado, comércio do outro, política no meio e diplomacia tentando equilibrar tudo como garçom carregando dez pratos numa bandeja.
E assim terminou mais um dia em que a terra tremeu, os jovens correram atrás do futuro, jogadores brigaram pelo passado, cientistas tentaram proteger o amanhã, uma cidade chinesa desafiou o chão e dois presidentes conversaram sobre um mundo que parece viver permanentemente numa reunião sem intervalo para café. Talvez o tremor de Pacatuba tenha sido apenas geológico. Ou talvez, poeticamente falando, tenha sido o planeta dando uma leve sacudida em nossa consciência. Porque há dias em que não é somente o chão que precisa se mover. Às vezes somos nós. Mover ideias, prioridades, preconceitos, esperanças. E que, entre tantos abalos da vida, saibamos conservar de pé aquilo que realmente importa: a humanidade, a ciência, a educação, o diálogo e a esperança — essa criatura teimosa que, mesmo quando o mundo balança, continua segurando a xícara para não derramar o café.