Crônica do Professor Antonio Glauber sobre o verdadeiro som do São João

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre o verdadeiro som do São João



Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

Chegue mais, meu povo! Acenda a fogueira da memória, passe um café coado na hora e escute o estalo da lenha, porque hoje a conversa é séria. O São João parece ter acordado olhando para o espelho e perguntando: "Quem sou eu?"

O verdadeiro São João nasceu embalado pelo fole da sanfona, pelo resmungo elegante da zabumba e pelo choro afinado do triângulo. O coração da festa bate no compasso do forró, do xote e do baião. Esses ritmos não são apenas músicas; são a certidão de nascimento da cultura nordestina. São o cheiro do milho assado, o calor da fogueira, a quadrilha, a bandeirinha balançando ao vento e o sorriso de quem dança de rosto colado.

Mas, de uns tempos para cá, resolveram fantasiar o São João de outra coisa. Entram no arraial com arrocha, sertanejo e outros estilos como se estivessem tentando convencer um peixe a subir em árvore ou um balão a mergulhar no rio. Não se trata de dizer que esses gêneros não tenham seu público ou seu valor. Têm, e merecem seu espaço. O problema é quando ocupam o lugar daquilo que dá identidade à festa junina.

É como servir sushi na ceia de Natal e chamar de tradição. É como trocar a sanfona por um silêncio vestido de fumaça. Aos poucos, a fogueira vai perdendo calor, e a cultura vai sendo empurrada para o canto do terreiro, enquanto o mercado dita o repertório.

Preservar o São João não é ser contra a modernidade. É compreender que um povo sem memória é como uma sanfona sem fole: até parece instrumento, mas já não produz a mesma alma. Que o forró continue sendo o rei da festa, que o xote siga ensinando a delicadeza do abraço e que o baião permaneça lembrando ao Brasil que o Nordeste não é apenas um lugar no mapa: é um patrimônio cultural que merece respeito.

Porque, quando o último acorde da sanfona se calar, talvez descubramos tarde demais que não era apenas uma música que estava acabando. Era um pedaço da nossa própria história.

Postagens mais visitadas deste blog

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 22 de Agosto de 2025

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as Notícias do Dia 10 de Dezembro de 2025

Megaboca: tubarão de espécie rara encalha em Sergipe