POESIA : Circunstâncias
Circunstâncias
Por Antonio Glauber Santana Ferreira
As circunstâncias, ah…
essas alcoviteiras do destino,
vestem-se de névoa e veludo,
caminham taciturnas pelos corredores do tempo
como monjas insones carregando círios apagados.
Há dias em que o universo parece
um vitral estilhaçado pela própria aurora,
e os homens, pobres náufragos de si mesmos,
vagam sob a clemência áspera
de relógios impiedosos e calendários putrefatos.
Circunstâncias…
essas meretrizes metafísicas
que gargalham nos interstícios da esperança
e semeiam cardos sobre os jardins da expectativa.
Têm dedos longilíneos,
feitos de ferrugem e penumbra,
e olhos abissais onde dormitam
as larvas da dúvida.
Quantas vezes o coração,
esse órgão incendiário e indômito,
ajoelha-se diante do acaso
como um vassalo febril diante de um rei moribundo?
Quantas vezes a alma,
exausta de silêncios e vicissitudes,
embriaga-se de quimeras
para suportar o peso ciclópico das horas?
Há circunstâncias que chegam
como cataclismos siderais,
demolindo catedrais interiores
e reduzindo convicções a cinzas erráticas.
Outras vêm brandas,
quase diáfanas,
como o voo melancólico de um albatroz ferido
sobre oceanos de chumbo.
E o homem, criatura de barro e vertigem,
perscruta os céus em busca de presságios,
sem perceber que o destino
costuma escrever suas epístolas
com tinta invisível e caligrafia cruel.
Circunstâncias…
arquitetas clandestinas das lágrimas humanas,
tecelãs de infortúnios e epifanias,
senhoras do improvável,
feiticeiras do efêmero.
Todavia, existe uma centelha
que nem elas conseguem asfixiar:
a insurreição secreta da esperança.
Porque mesmo sob o inverno das fatalidades,
há sempre uma flor insubmissa
rompendo o asfalto da desesperança
com pétalas de eternidade.