Crônica do Professor Antonio Glauber sobre o futebol, tragédia e superstição

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre o futebol, tragédia e superstição

Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O futebol brasileiro é um terreiro de emoções onde a bola quica como quem dança maracatu em chão molhado de lágrimas. Basta um time vencer demais, levantar taças em sequência e desfilar soberano pelos gramados, que logo aparece um profeta do apocalipse esportivo dizendo que houve pacto, feitiço, despacho ou contrato assinado com o gerente do inferno no cartório da meia-noite.

E o povo acredita… Ah, acredita mais rápido do que atacante em impedimento levantando os braços para pedir validade do gol.

Depois da tragédia no Ninho do Urubu, quando jovens sonhos viraram fumaça numa madrugada cruel, surgiram pelas esquinas digitais os vendedores de mistério. Os mesmos que transformam dor em espetáculo e sofrimento em roteiro de filme barato. Para eles, não bastava a tristeza; era preciso colocar chifres imaginários na história.

O Brasil, esse país onde até papagaio dá opinião política e cachorro late quando o VAR chama, adora uma superstição. Se o time perde, a culpa é da camisa azarada. Se ganha tudo, fizeram pacto. Se chove no clássico, é sinal do além. Se o juiz erra, foi Mercúrio retrógrado atuando na cabine do VAR.

Mas a verdade, essa senhora cansada que anda de chinelo velho pelas ruas da realidade, costuma ser mais simples e menos cinematográfica. O Flamengo ganhou porque montou um esquadrão milionário, empilhou jogadores talentosos e colocou o futebol para funcionar como máquina de moer adversários. Nada de magia; apenas dinheiro, organização e talento — os três feiticeiros mais poderosos do futebol moderno.

Só que a internet prefere o sobrenatural ao óbvio. O algoritmo gosta de assombração. Tragédia vende clique. Mistério gera compartilhamento. E assim surgem os “especialistas em pacto esportivo”, doutores honorários da Universidade Federal da Teoria da Conspiração.

Enquanto isso, o futebol segue como sempre foi: um circo romano tropical onde milhões choram, gritam, rezam e xingam ao mesmo tempo. Um lugar onde a bola às vezes entra por milagre e às vezes bate na trave como boleto recusado pelo banco às seis da tarde.

No fim, talvez o verdadeiro pacto do futebol brasileiro seja outro: o acordo silencioso entre paixão e loucura. Porque o torcedor sofre, reclama, promete abandonar o time… mas volta no domingo seguinte, abraçado ao rádio, à TV ou ao celular, como quem retorna para um amor impossível.

E assim o Brasil continua girando: entre gols, lendas, memes, choros, superstição e esperança. Porque aqui até a tristeza veste camisa de clube e entra em campo aos 45 do segundo tempo.

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