Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de março de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 05 de março de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
O mundo acordou hoje com o coração dividido entre o estetoscópio e o estilhaço. De um lado, em Aracaju, a esperança vestiu jaleco branco e entrou sorrindo pela porta da frente do Hospital de Cirurgia. Do outro lado do planeta, no Oriente Médio, a guerra continuou escrevendo suas cartas com tinta de pólvora e lágrimas. É o planeta Terra, esse velho teatro onde os anjos distribuem curativos enquanto os demônios vendem munição em promoção de fim de estação. Respire fundo, leitor, porque hoje o noticiário parece uma gangorra moral: de um lado da balança nasce uma UTI Pediátrica; do outro, morrem crianças em uma guerra que não pediu autorização a Deus para existir.
Em Aracaju, o Hospital de Cirurgia inaugurou uma UTI Pediátrica, e eu imagino aquele corredor hospitalar como se fosse uma pequena avenida de esperança iluminada por lâmpadas fluorescentes que piscam como estrelas domésticas. Ali dentro, máquinas apitam como passarinhos metálicos anunciando: “Respira, pequeno… respira…”. Cada leito parece um barco tentando atravessar o oceano da fragilidade infantil. Cada médico é um capitão de olhos cansados e mãos de milagre, e cada enfermeira carrega no bolso invisível um pedaço do coração da humanidade. UTI pediátrica não é apenas tecnologia, não é apenas monitor cardíaco piscando como vaga-lume digital; é poesia em forma de ciência, é a medicina tentando convencer a morte a esperar um pouco mais na sala de recepção. É o mundo dizendo com delicadeza: “Ei, crianças… fiquem. O planeta ainda precisa das gargalhadas de vocês.”
Enquanto isso, lá em Brasília, o Brasil segue apresentando mais um episódio daquela novela nacional chamada “A República e Seus Personagens Surreais”. A Polícia Federal pediu, e o ministro André Mendonça autorizou a transferência do banqueiro Daniel Vorcaro para um presídio federal em Brasília. Traduzindo para o português da esquina: o homem que vivia cercado de cofres agora vai morar cercado de grades. É a arquitetura moral brasileira, onde alguns passam a vida dentro de bancos e acabam descobrindo que o único investimento realmente seguro é o silêncio atrás de uma cela. Ironia das ironias: no Brasil, o dinheiro às vezes corre como atleta olímpico e a justiça caminha como aposentado em fila de banco; mas quando finalmente se encontram, o encontro é constrangedor como sogra em lua de mel. A justiça chega de repente, sem pedir licença, como fiscal da Receita em churrasco de político.
Mas enquanto Sergipe acende velas de esperança, o Oriente Médio continua soprando o vento frio da tragédia. Segundo a Unicef, 192 crianças morreram na guerra. Repito devagar, para que a consciência não finja que não ouviu: crianças. Pequenos seres humanos que ainda estavam aprendendo a escrever o próprio nome, a desenhar casas com telhado triangular e sol sorridente no canto da folha. Muitas delas morreram dentro de uma escola de meninas no Irã. Uma escola. O lugar que deveria ser templo da caneta virou cenário de míssil. É como se o mundo tivesse confundido o lápis com uma granada e o caderno com um campo de batalha. Isso dói. Dói mais que chute na quina da mesa. Dói mais que ouvir um noticiário que parece ter perdido o manual básico da humanidade. Porque guerra nenhuma deveria ter coragem de atravessar o portão de uma escola, mas atravessa. A guerra é uma senhora cega, surda e cruel. Ela não escuta o choro das mães, não vê os desenhos infantis nos cadernos, não percebe as mochilas coloridas esperando o recreio. Ela só enxerga mapas, interesses e discursos inflamados.
E assim seguimos, tropeçando entre milagres e absurdos. No mesmo dia em que um hospital abre portas para salvar crianças, o mundo cava covas para outras. No mesmo planeta onde médicos lutam contra a morte com seringas e esperança, generais fazem contratos com ela em salas climatizadas. É como se a humanidade fosse um violino desafinado: uma corda toca esperança, a outra vibra tragédia, e o som que sai dessa mistura é uma sinfonia estranha chamada realidade.
Mas ainda acredito em algo teimoso como criança que insiste em brincar na chuva. Enquanto existirem médicos inaugurando UTIs, enquanto existirem professores abrindo livros em salas de aula quentes do interior, enquanto existirem mães ensinando filhos a serem gentis, a humanidade ainda terá chance de aprender. O mundo pode até parecer uma sala bagunçada depois de uma festa de irresponsabilidades, mas ainda existe gente tentando varrer o chão. E isso, meu caro leitor, já é um pequeno milagre. Porque no meio de tanta pólvora ainda existem mãos segurando estetoscópios, e isso significa que a esperança — essa menina teimosa chamada humanidade — ainda insiste em viver. E viver, mesmo quando o mundo parece completamente louco, continua sendo o ato mais revolucionário que existe.