A sede de Japaratuba: quando a água vira promessa e a responsabilidade evapora
A sede de Japaratuba: quando a água vira promessa e a responsabilidade evapora
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
A água é o sangue silencioso que corre nas veias de uma cidade. Ela acorda antes do sol, ferve o café das casas simples, lava os rostos cansados de quem trabalha, refresca as crianças que brincam nas ruas e embala o descanso das famílias ao cair da noite. Sem água, uma cidade não respira. Ela suspira… e sofre.
É exatamente isso que Japaratuba vem vivendo desde quinta-feira, 05 de março. Dias e dias de torneiras secas, caixas vazias e paciência esgotada. A população olha para os canos como quem olha para o céu esperando chuva no sertão. Mas o que vem é apenas silêncio.
E silêncio, nesse caso, não mata apenas a sede — mata a confiança.
A empresa Iguá Sergipe, responsável atualmente pelo abastecimento, precisa compreender uma coisa simples e essencial: água não é um produto qualquer de prateleira. Água é serviço essencial, é dignidade humana, é direito básico. Quando ela falta por tanto tempo, não estamos falando apenas de logística ou manutenção técnica. Estamos falando de respeito à população.
Eu nasci em Japaratuba. Cresci vendo a cidade atravessar dificuldades, mudanças políticas, problemas estruturais e crises administrativas. A antiga Deso teve, sim, suas falhas. Quem viveu aqui sabe disso. Mas há algo que precisa ser dito com clareza: nunca se viu Japaratuba passar tantos dias consecutivos sem água como agora.
Nunca.
Nem nos momentos mais difíceis.
Hoje, a realidade é cruel e quase absurda: famílias precisam comprar água para cozinhar, comerciantes veem seus negócios prejudicados, escolas e casas enfrentam dificuldades básicas de higiene. A água, que deveria chegar naturalmente pela torneira, agora precisa ser buscada como se estivéssemos vivendo em tempos de escassez extrema.
E tudo isso acontece em pleno século XXI.
Essa situação também levanta uma reflexão importante para o debate público. Durante muito tempo se repetiu, como um mantra econômico, que a privatização seria a solução para os problemas dos serviços públicos. Diziam que a iniciativa privada traria eficiência, rapidez e qualidade.
Mas a realidade, às vezes, gosta de desafiar discursos fáceis.
Japaratuba hoje se transforma em um exemplo concreto de que privatização não é automaticamente sinônimo de melhoria. Quando não há planejamento, transparência, comunicação com a população e responsabilidade social, o modelo muda… mas o problema permanece — ou até piora.
Empresas que assumem serviços essenciais precisam compreender que não estão apenas administrando contratos. Estão administrando vidas.
A Iguá Sergipe precisa se posicionar com clareza. A população merece explicações detalhadas:
Qual foi o problema real no sistema?
Por que a cidade ficou tantos dias sem abastecimento?
Quais medidas emergenciais foram tomadas?
O que está sendo feito para que isso não volte a acontecer?
A ausência de respostas só aumenta a indignação.
Japaratuba não pede luxo. Não pede milagres. Não pede promessas de campanha nem discursos técnicos difíceis de entender.
Japaratuba pede apenas algo simples: água nas torneiras.
Porque uma cidade pode até sobreviver sem muitas coisas, mas sem água ela se torna um retrato triste de abandono.
E enquanto as torneiras continuam secas, a pergunta ecoa pelas ruas, pelas casas e pelos corações de quem mora aqui:
Quem vai matar a sede de Japaratuba? 💧