Quando o Relógio Não Entende a Escola

Quando o Relógio Não Entende a Escola


Mudar a hora-aula para 60 minutos pode parecer, à primeira vista, uma decisão simples, quase matemática: acrescenta-se tempo, imagina-se que se ganha mais aprendizagem, e o problema estaria resolvido. Mas a escola não é uma fábrica de parafusos, nem o conhecimento nasce por decreto de cronômetro.

A sala de aula tem um ritmo próprio. O aluno tem limites de atenção, de concentração e até de resistência emocional. Sessenta minutos, muitas vezes, não significam mais aprendizagem — significam mais cansaço, mais dispersão e menos rendimento. O tempo da aprendizagem não é o mesmo tempo do relógio; é o tempo da curiosidade, da participação, da interação. Quando esse equilíbrio se rompe, o relógio vence, mas a educação perde.

Há também a realidade concreta do professor. Aumentar a duração da aula sem reorganizar adequadamente a carga horária, o planejamento e as condições de trabalho pode transformar o ensino em uma maratona desgastante. O professor deixa de ser um mediador atento e passa a ser um sobrevivente do cansaço, contando os minutos como quem atravessa um deserto esperando o fim da jornada.

Outro ponto que precisa ser refletido é que muitas dessas mudanças surgem sem diálogo suficiente com quem vive a escola todos os dias. Decidir o tempo da aula sem ouvir professores, coordenadores e alunos é como construir uma ponte sem perguntar a quem precisa atravessar o rio.

Educação não se faz apenas com números e tabelas; faz-se com sensibilidade, escuta e planejamento sério. Antes de aumentar o tempo de cada aula, seria mais prudente perguntar: estamos garantindo melhores condições de ensino? Estamos oferecendo materiais, formação, estrutura e apoio pedagógico? Se a resposta for não, aumentar minutos será apenas maquiar problemas que continuam existindo.

A escola precisa de qualidade, não apenas de quantidade. Porque, no fim das contas, não é o tamanho da aula que transforma a educação — é o sentido que se dá a ela.

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