Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de Fevereiro de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 19 de Fevereiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
No dia 19 de fevereiro de 2026 o céu resolveu escrever poesia em letras de vento.
Um tal de vórtice ciclônico — esse redemoinho professor de Geografia que não aceita aula vaga — começou a girar sobre Sergipe como quem mexe o café da manhã com colher de tempestade. Não é furacão, não é apocalipse, não é cavalo do Cacique Morubixaba galopando no horizonte. É só o céu lembrando que ainda sabe rodopiar.
As nuvens convectivas — nome bonito para “nuvens com personalidade forte” — se levantaram feito plateia indignada. Trovoadas ensaiaram solos de bateria. O vento fez discurso. A chuva, ah, a chuva... caiu como lágrima grossa de um céu que não aguenta mais tanto calor humano e tão pouca humanidade térmica.
E enquanto o céu girava, a economia fazia pirueta.
A empresa aérea Azul Linhas Aéreas anunciou um aporte de 300 milhões de dólares, com investimento da American Airlines e da United Airlines. Cem milhões de lá, cem milhões de cá… parece vaquinha internacional para salvar avião cansado.
A Azul, em recuperação judicial, virou aquele passageiro que pede ajuda para pagar a passagem de volta para casa. E o mundo corporativo, com sua gravata apertada e seu sorriso de PowerPoint, estendeu a mão — mas com contrato em três vias e cláusula até no cafezinho.
É curioso como o capital voa mais alto que qualquer Boeing. Quando falta combustível no tanque, sobra cifra no balanço. E assim o dinheiro, esse pássaro invisível, cruza continentes sem enfrentar turbulência moral.
Enquanto isso, lá na Argentina, o chão tremeu — não por terremoto, mas por greve.
Sob o comando do presidente Javier Milei, a proposta de reforma trabalhista quer alongar jornadas, apertar férias, enxugar direitos como quem torce roupa molhada no varal do neoliberalismo. Resultado? Fábricas paradas. Metal frio. Motores mudos. Operários de braços cruzados — que, aliás, cruzam os braços porque estão cansados de cruzar a vida com o salário curto.
A greve geral virou trovão humano. Não daqueles que anunciam chuva, mas daqueles que anunciam resistência. Porque quando o trabalhador silencia a máquina, a máquina aprende o valor do silêncio.
E eu fico aqui, em Japaratuba, olhando para o céu que gira e para o mundo que gira mais ainda.
O vórtice lá em cima não promete desastre extremo. Mas o vórtice social, esse sim, anda fazendo estrago invisível: direitos evaporando, empregos voando, dignidades balançando como roupa em dia de vento forte.
A chuva que pode cair em Sergipe é só água. Já as tempestades políticas são de outra natureza: molham a esperança e às vezes encharcam o futuro.
Mas há algo que me emociona — e digo com o coração aberto como janela em dia de chuva fina: o mundo ainda reage.
O céu reage com nuvens. A economia reage com acordos. O povo reage com greve. E nós, cronistas, reagimos com palavras.
Porque se o vento insiste em rodar, eu insisto em escrever. Se a trovoada insiste em gritar, eu grito em metáforas. Se o dinheiro voa, eu planto raízes. Se o trabalhador cruza os braços, eu descruzo o verbo.
19 de fevereiro não foi só previsão do tempo. Foi previsão de mundo.
E o mundo, meus amigos, está em estado de instabilidade atmosférica permanente.
Que venha a chuva — mas que venha também consciência. Que os aviões decolem — mas que ninguém fique sem chão. Que as fábricas voltem a funcionar — mas que funcionem com justiça.
Porque tempestade passa. Dinheiro circula. Governos mudam.
Mas dignidade… Dignidade não pode entrar em recuperação judicial.
E se entrar, que haja aporte — não de dólares, mas de humanidade.