Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de Fevereiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 20 de Fevereiro de 2026





Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE

O céu resolveu mastigar gelo e cuspir indignação em Porto da Folha.

Granizo no Alto Sertão.

Pedras de gelo caindo como se São Pedro tivesse perdido a paciência e decidido jogar dados com a cabeça do povo. Não era chuva. Era pedrada meteorológica. Era o céu praticando arremesso olímpico. Era a natureza dizendo: “Vocês andam quentes demais.”

E o sertanejo, acostumado a negociar com o sol como quem conversa com um patrão mal-humorado, de repente olhou para cima e viu o firmamento virar freezer. O chão quente beijando o gelo. A terra, que cheira a suor e esperança, agora cheirava a surpresa.

O granizo caiu como se o clima tivesse decidido fazer stand-up comedy:
— Vocês reclamam do calor? Toma gelo!

E a Secretaria de Meio Ambiente confirmou o fenômeno. Confirmou como quem diz: “Não foi miragem, não. Foi o mundo avisando que está com febre.”

O planeta anda tossindo. E nós, distraídos, achando que é só um resfriado passageiro.

Enquanto isso, em Brasília — essa cidade onde o ar-condicionado trabalha mais que muito gabinete — a Câmara reajustava salários, verbas, cotas, gabinetes… uma verdadeira chuva de cifras.

Mas lá não caiu granizo.
Caiu aumento.

A justificativa? “Recompor o desgaste inflacionário.”

Desgaste inflacionário.

Bonita expressão. Parece nome de banda indie. Parece perfume francês. Mas, no fundo, é aquele velho argumento que não molha o sapato de quem pisa no barro.

Porque o povo recompõe o desgaste inflacionário com criatividade:
— Troca a marca do arroz.
— Diminui a carne.
— Estica o gás como quem estica elástico de cueca velha.

Já os parlamentares recompõem com reajuste.

E eu fico imaginando o cidadão comum lendo a notícia enquanto conta moedas sobre a mesa. O barulho da moeda é um som fino, quase triste. Já o barulho do aumento lá de cima é grave, pomposo, cheio de eco.

É como se existissem dois climas no Brasil:
Um com granizo.
Outro com privilégios ensolarados.

Mas o noticiário ainda reservava mais um capítulo do teatro geopolítico.

Lá na Índia, ao lado de Narendra Modi, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursava sobre a manutenção da América do Sul como zona de paz.

Zona de paz.

Que expressão bonita. Que palavra redonda. Que sonho necessário.

Num mundo que anda brincando de guerra como criança inconsequente brinca com fósforo, falar em paz é quase um ato revolucionário. É plantar flores em campo minado. É oferecer café quente em sala de gelo diplomático.

Fortalecer o Sul Global para que não entremos numa nova guerra fria entre potências.

Eu confesso: quando ouço “guerra fria”, penso logo em geladeira ideológica. E depois lembro do granizo em Porto da Folha. O frio anda simbólico demais.

O mundo parece dividido entre extremos:
Granizo no sertão.
Aumento no plenário.
Discursos de paz num planeta inflamado.

E nós, aqui em Japaratuba, seguimos com os pés no chão quente e os olhos no céu instável.

O cheiro da terra molhada ainda é o perfume mais honesto que conheço. Ele não mente. Ele não usa metáfora institucional. Ele apenas anuncia: algo caiu do alto.

E sempre que algo cai do alto, a gente precisa perguntar:
Foi bênção?
Foi descuido?
Foi justiça?
Foi ironia divina?

O granizo ensina que até o céu pode endurecer.
O reajuste ensina que o poder raramente passa frio.
O discurso de paz ensina que ainda existe quem queira acender velas em meio ao vendaval.

Mas a maior lição talvez seja outra.

O Brasil é esse país onde o sertão pode virar iceberg por alguns minutos, onde o plenário pode virar cofre aberto, e onde a diplomacia tenta virar ponte enquanto o mundo constrói muros.

E eu, professor, cronista, filho dessa terra de caciques e poetas, olho para tudo isso com o coração dividido entre o riso e a preocupação.

Porque rir é resistência.
Mas refletir é obrigação.

Se o granizo nos lembra da força da natureza, que ele também nos lembre da fragilidade humana.
Se o aumento nos provoca indignação, que ele também provoque consciência.
Se o discurso de paz ecoa longe, que ele ecoe dentro de nós primeiro.

O dia 20 de fevereiro de 2026 foi assim:
Um céu que atirou gelo.
Um plenário que distribuiu calor próprio.
Um presidente que falou de paz em meio a um mundo nervoso.

E o povo?

O povo segue sendo o verdadeiro meteorologista da história. Sente no rosto cada mudança de vento. Sabe quando a tempestade é natural e quando é política.

E mesmo debaixo de granizo, ainda encontra tempo para sorrir.

Porque, no Brasil, até a pedra que cai do céu vira assunto de crônica.

E enquanto houver céu, chuva e notícia,
haverá palavra.

E enquanto houver palavra,
haverá esperança.

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