Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de Fevereiro de 2026
Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 23 de Fevereiro de 2026
Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE
A segunda-feira amanheceu com cheiro de ferro queimado e lágrima represada. O céu parecia ter acordado mais baixo, como se tivesse diminuído o volume do mundo por respeito. E a primeira notícia do dia não foi manchete — foi punhal.
Dois sergipanos, dois meninos do nosso chão, dois filhos do vento nordestino, encontrados dentro de um tanque que explodiu feito coração traído em Volta Redonda. Alberdan, de Pirambu. Antoniel, de Japaratuba. Dois nomes que agora ecoam como sino rachado na memória da gente. Foram buscar sustento e encontraram silêncio. Foram atrás de futuro e tropeçaram na brutalidade do destino.
A vida, às vezes, é um contrato escrito a lápis num papel molhado.
A explosão não foi só de combustível. Foi de sonhos. Foi de planos. Foi de promessas feitas às mães ao pé do portão: “Eu volto, mainha.” E agora o que volta é a saudade, esse bicho sem coleira que arranha o peito da família.
Enquanto isso, o Brasil segue. Segue como se fosse possível seguir.
No mesmo noticiário que chora, a Orquestra Sinfônica de Sergipe abre vagas para o Coro Sinfônico Amador. Quarenta vozes procurando garganta, pulmão e esperança. Não precisa saber ler partitura — basta saber respirar e sentir. Que coisa mais bonita! No país que explode tanques, ainda há quem queira afinar almas. É como se a vida dissesse: “Eu também sei cantar.”
E lá vai o presidente Lula, girando pelo mundo como pião diplomático — Índia, Coreia do Sul, Emirados Árabes. Um Brasil de passaporte na mão tentando negociar futuro enquanto aqui dentro a gente negocia o preço do feijão. O mundo é um tabuleiro e cada país mexe suas peças com cara de pôquer e bolso aberto.
Do outro lado do ringue político, a família Bolsonaro parece novela das nove com roteiro escrito por roteirista nervoso. Racha pra lá, amnésia pra cá, herança política disputada como se fosse prêmio de bingo. Flávio candidato, Michelle pensativa, Nikolas estrategista, Eduardo indignado. É um jantar de família servido com talheres de farpa. Se Freud fosse brasileiro, pediria aposentadoria antecipada.
E no céu da aviação, American e United agora seguram 8% da Azul. O capitalismo é um jogo de cadeiras em que ninguém quer ficar em pé quando a música para. Azul sai do Chapter 11 como quem sai de UTI financeira: ainda pálida, mas respirando. Resta saber se vai voar ou planar.
Lá fora, Trump volta a soprar tarifaço como quem sopra vela de aniversário — só que o bolo é o comércio mundial. A União Europeia adia votação, recalcula rota, ajusta bússola. O planeta inteiro virou reunião de condomínio onde ninguém quer pagar a taxa extra.
E eu aqui, no meio disso tudo, tentando costurar essas notícias como quem remenda roupa rasgada pela pressa da história.
A segunda-feira foi assim: metade luto, metade ensaio. Metade pólvora, metade partitura. O mundo explodindo tanques e abrindo inscrições para coral. Brigando por poder e tentando salvar companhias aéreas. Diplomacia de terno alinhado e famílias com o coração desalinhado.
Há dias em que a humanidade parece um violino desafinado tocando marcha fúnebre. Mas há outros — ainda que pequenos — em que alguém decide cantar.
Que Alberdan e Antoniel encontrem paz onde não haja explosões. Que as famílias encontrem colo onde o mundo foi duro. Que o Brasil aprenda, um dia, a proteger seus filhos antes de exportar seus sonhos.
Porque notícia a gente lê.
Mas dor… a gente sente.