Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 24 de Fevereiro de 2026

Crônica do Professor Antonio Glauber sobre as notícias do dia 24 de Fevereiro de 2026



Por Antonio Glauber Santana Ferreira — Japaratuba-SE


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O dia 24 amanheceu com o coração dividido entre a seringa e o sirene.

De um lado, Sergipe recebeu 7,9 mil doses de esperança líquida — a vacina contra a dengue chegou como quem traz guarda-chuva em tempo de nuvem traiçoeira. Quadrivalente! Protege contra quatro sorotipos! Uma vacina 100% brasileira, dessas que dão vontade de bater no peito e dizer: “É nossa!”

É curioso… enquanto o mosquito faz campanha eleitoral dentro das casas, zune promessas no ouvido e pede voto na água parada, a ciência responde com agulha fina e coragem grossa. A dengue, esse vampiro tropical de asas democráticas — que não escolhe classe social — agora encara um adversário de jaleco branco e sotaque nacional.

Sete mil e novecentas doses. Parece pouco diante do exército de pernilongos que fazem rave nas caixas d’água. Mas é semente. E toda semente, quando plantada com responsabilidade, vira floresta de proteção.

Enquanto isso, em Minas Gerais, a chuva resolveu escrever sua própria crônica — mas com tinta de luto.

Juiz de Fora. Ubá. Zona da Mata. Nomes que deveriam rimar com café quente e conversa na varanda, agora rimam com sirene e silêncio. Vinte e duas vidas interrompidas. Quatrocentos e quarenta desabrigados. Quarenta e cinco desaparecidos — números que não são números: são cadeiras vazias, são pratos frios sobre a mesa, são abraços suspensos no ar como reticências doloridas.

A água, quando quer, não pede licença. Invade, arrasta, desmancha. Ela não bate à porta — ela arromba.

O presidente Lula, do outro lado do mundo, na Ásia, lamentou pelas redes sociais e determinou mobilização. O mundo é curioso: hoje a solidariedade viaja por Wi-Fi. A dor é mineira, mas o lamento é globalizado. Ainda bem que a empatia não precisa de visto.

E no meio desse turbilhão, a Alemanha nos ofereceu um episódio digno de tragicomédia moderna: passageiros presos dentro de aviões porque… não havia ônibus.

Sim, meus caros leitores, a tecnologia voa a dez mil metros de altitude, mas às vezes tropeça na falta de um motorista. Se fosse no Brasil, diriam: “É coisa de país desorganizado.” Mas foi em Munique. A nevasca caiu, o pessoal faltou, e os passageiros passaram a noite confinados no próprio voo — uma espécie de Big Brother gelado, sem prêmio e sem paredão, apenas com frio e cansaço.

A humanidade pousa em Marte, mas ainda depende de um ônibus. Isso é poesia involuntária.

E quando pensamos que já vimos o suficiente, o México nos lembra que o mundo também sangra pólvora.

Puerto Vallarta, antes postal de pôr do sol romântico, virou cenário de filme distópico após a morte de “El Mencho”, líder do Cártel Jalisco Nueva Generación. Carros incendiados, lojas vandalizadas, turistas assustados. O paraíso virou trincheira.

O narcotráfico é uma serpente que, quando perde a cabeça, balança o corpo com mais violência ainda. A morte do chefão não encerrou o capítulo — apenas trocou o tipo de manchete.

E eu fico aqui, em Japaratuba, olhando o mundo como quem observa um tabuleiro onde as peças se movem sozinhas.

Vacina e tragédia. Solidariedade e caos. Nevasca e negligência. Narcos e incêndios.

O planeta parece uma panela de pressão sem manual de instruções.

Mas, ainda assim — e aqui falo com o coração aberto como janela em tarde de vento — há algo que resiste.

Resiste a enfermeira que aplica a vacina com mãos firmes.
Resiste o bombeiro que cava a lama procurando um sopro de vida.
Resiste o passageiro que transforma desespero em piada para não congelar por dentro.
Resiste o morador que, mesmo cercado por fumaça e medo, insiste em reconstruir.

O mundo não acabou hoje. Ele apenas nos lembrou que é frágil.

E talvez a grande ironia seja essa: enquanto a humanidade se acha gigante, ela ainda depende de uma gota de vacina, de um guarda-chuva, de um ônibus, de um gesto.

Somos pequenos. Mas quando decidimos cuidar uns dos outros… somos imensos.

E no meio desse noticiário que alterna esperança e luto, sigo acreditando — com teimosia poética — que cada dose aplicada, cada mão estendida e cada lágrima compartilhada é uma forma de dizer ao caos:

“Você pode até gritar…
mas nós ainda sabemos cantar.”

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