CONTO : A Travessia

A Travessia



Por Antonio Glauber Santana Ferreira - Japaratuba-SE

Havia um rio largo que cortava a pequena cidade como uma cicatriz antiga. Diziam que, do outro lado, tudo era diferente: o vento soprava mais leve, os caminhos eram mais claros, e o coração das pessoas batia sem medo.

Miguel olhava para aquela água todos os dias. Não era um rio bravo, mas também não era manso. Era daqueles rios silenciosos, que parecem tranquilos, mas escondem correntezas que puxam para dentro — como certas tristezas que a gente guarda sem contar a ninguém.

Durante muito tempo, Miguel ficou na margem. Observava. Pensava. Inventava desculpas. Dizia a si mesmo que ainda não era a hora. Que faltava coragem. Que faltava força.

Mas, numa manhã em que o céu amanheceu cor de esperança, ele percebeu que o tempo não espera ninguém. O rio continuava correndo, indiferente, como um relógio líquido.

Então decidiu atravessar.

Construiu uma pequena jangada com madeira velha, amarrada com cordas gastas, e empurrou-a para a água. O primeiro passo foi o mais difícil — como sempre é na vida. O segundo já veio mais firme. E quando se deu conta, já estava no meio do rio.

A correnteza tentou levá-lo para trás. O vento tentou desanimá-lo. O medo sussurrou em seu ouvido como um velho conhecido.

Mas Miguel continuou remando.

Quando finalmente chegou à outra margem, não encontrou um mundo mágico. Não havia ouro, nem castelos, nem aplausos. Havia apenas o mesmo céu, o mesmo vento e o mesmo chão.

Mas havia algo diferente: ele.

Miguel percebeu, então, que a travessia nunca foi sobre o rio.
Era sobre vencer o medo que morava dentro dele.

E, ao olhar para trás, viu que o rio parecia menor. Não porque tivesse diminuído — mas porque ele tinha crescido.

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